Ainda sem título.

 

sábado, 16 de março de 2024

 


Gosto de iniciar meus escritos já tendo escolhido o título do artigo. Nem sei ainda se poderei divulgá-lo na coluna Pincéis e Letras, do Jornal da Editora Rio de Flores. Tem sido um prazer gratificante, estar em meio ao seleto grupo de escritores e poetas, sob a liderança do artista e editor Renato Galvão, reunidos nas antologias publicadas.

Quando a saúde permite, a mente se enleva, guiada pelo tema sugerido pelo edital da antologia! Então, vou digitando as linhas do texto. É assim que faço, como se fora um projeto antigo, daqueles longamente matutados nas madrugadas de muitos sonhos, quando me proponho a redigir. Por certo, você sabe o que eu quero dizer com “madrugadas de muitos sonhos”! Não é a mesma coisa que dizer de noites mal dormidas; tampouco estou a falar de pensamentos agourentos que por vezes nos assaltam como pesadelos!

Infelizmente, com a idade, percebo que vou ficando susceptível aos assombros noturnos, principalmente quando me deixo levar pelos negativos “noticiários” pautados, nos atuais canais de “telejornalismo”! Que desgraça é essa, minha gente? Pois bem! O resultado qual é? Sabe o que eu tenho feito? Eu me desligo! Não assisto mais noticiários, especialmente antes de me deitar. Pelo amor de Deus, gente! Larga do meu pé, bando de fofoqueiros! Sei que existem jornalistas profissionais de caráter e honestidade! Atualmente eles são mais fáceis de identificar. Adoro aqueles que deixam os ouvintes com a liberdade de opinar e tirar conclusões próprias. Podem até ser erradas as minhas conclusões, mas elas me pertencem, são próprias, são as minhas, e não o fruto de manipulação e dirigismo estatal da opinião dos cidadãos.

Então, para não sofrer, desligo a TV, procuro um bom filme ou simplesmente ponho-me a sonhar. Depois, no dia seguinte, eu encontro algum tempo para escrever e organizar as ideias que os sonhos me iluminaram. Quando dou início ao que desejo escrever, tendo um título previamente indicado, parece que as coisas ficam mais bem esclarecidas; é como se eu tivesse um norte; aquela direção de estrada a seguir, com as curvas e as retas bem indicadas.

Mas aqui, neste caso, não firmei uma proposta de titulação para o artigo. Quem sabe? Talvez, mais ao final esse detalhe surgirá; e será esclarecido!

Então vou caminhando, em meio aos pincéis e às letras! Vou contando com os certeiros cochichos, oferecidos pelas estranhas vozes que me aconselham a consciência, principalmente na hora de escrever. Vou mais lentamente, isso é certo! Não dá pra correr, afinal, a estrada do escritor que se vale do idioma português é sempre mais arriscada e torna-se perigosa nas curvas semânticas. Que o português é uma língua bela e que oferece alternativas ilimitadas a uma boa comunicação, isso ninguém nega! Justamente, o problema recai nesse ponto, isto é, na sua riqueza gramatical! Qualquer pequena derrapada, numa curva pouco conhecida do idioma, levará a gramaticalização para o barranco do léxico! É quando deixamos de ser simples e humildes escritores ou poetas, e acreditamos ser uma espécie de Airton Senna redacional, por imaginarmos como sendo praticantes da gramatologia, e findamos por produzir somente gramatiquices ridículas e primárias! Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, devo ponderar, vez ou outra, uma pequena derrapada no texto dá uma ponta de emoção e prazer ao escritor. E tem mais! Muitas vezes, derrapamos nas retas; saímos catando pedras nos acostamentos das entrelinhas, cantando pneus da ortografia equivocada, justamente num trecho onde jamais se pensaria cometer aquele tão absurdo erro, jamais encontrado pelo revisor! Creio que tenham sido, digamos assim, essas “licenças poéticas” que marcaram, positivamente, algumas das mais belas odes poéticas da literatura portuguesa e brasileira!

Eu, que estou quilômetros distante de me considerar um ESCRITOR, reconheço que gosto de escrever, mesmo sabendo que terei deslizes, com minhas “derrapagens” e “catadas de meio-fio”! Perdoem-me os leitores, se eu os martirizo com essas mal traçadas (por vezes “despencadas”) linhas. Leio e releio as coisas que vou garatujando, rabiscando mesmo minhas ideias. Estou certo de que a inteligência dos mais modernos corretores digitais de textos será pouca, para garantir que escreverei corretamente!

Não vou chegar aos termos propalados por Paulo Freire, que pretendeu dar, ao processo de aprendizado da língua portuguesa, uma liberdade exagerada, como se assim fosse possível ampliar o processo de comunicação. Provocou sim, um puro desregramento idiomático! Um grande engano! O distanciamento da observação das regras do vernáculo, na forma Paulo Freire, coloca o indivíduo na condição de isolamento e vulnerabilidade. A ignorância estimulada, com os maus exemplos de cima para baixo, reverbera na sociedade um vácuo cultural, que será fatalmente ocupado pelos estrangeirismos ou, o que é pior, pela contracultura generalizada. Um povo que perde sua língua nacional, perde suas raízes e por certo já estará a caminho da submissão. Vejam, como exemplo, o caso dos indígenas no Brasil, onde aproximadamente 210 milhões de habitantes falam português, enquanto apenas 170 mil pessoas falam cento e noventa idiomas indígenas. Por mais que se possa imaginar uma solução, capaz de garantir a sobrevivência dessas “nações”, creio que o destino dos povos originários está traçado há muitos anos; e bem pode ser imaginado qual será! Faltou aos habitantes primitivos o conjunto de palavras e expressões usadas em comum, como característica de um só povo, portanto faltou-lhes o chamado “idioma nacional”.

Consultando um dicionário, ficamos perplexos com a quantidade de significados e sentidos que a palavra “língua” apresenta em português. Deve ser por essa razão que é tão complicado escrever corretamente no nosso idioma. Complicado, porém não desanimador! Tente, persista, erre e supere as dificuldades, vá avante! Sacodindo a poeira, “dê a volta por cima”, e siga escrevendo! Melhor errar na escrita de suas ideias do que ser omisso; tenha opiniões firmes e coragem para apresentá-las por escrito. Publique, divulgue, aceite opiniões contrárias; jamais deixe de emitir a sua própria versão dos fatos. Rosne suas ideias, mesmo sendo elas aparentes boçalidades, mas escreva com convicção. Tenha persuasão íntima e exponha seus pensamentos! Não se furte quando desejar falar, contudo escreva antes o que deseja discursar. Uma boa oratória demanda um excelente texto!

Por fim, lembre-se de que, palavras ditas ao tempo, o vento as carregará aleatoriamente, levando a ouvidos desatentos. Em breve, elas estarão perdidas e esquecidas! Entretanto, ao escrevê-las, você tentará perpetuá-las e, dessa forma, garantir que gerações, muito além da sua, poderão ler, discutir e aperfeiçoar aquelas simples ideias que, no início, por não terem um título, um rumo, um destino, pareciam sem finalidade.

Benditos sejam aqueles que se dedicaram a escrever mensagens. Salve os escribas! Com erros ou não, o que importa é que redigiram! Foram eles que, ao longo dos milênios, registraram o pensamento humano inteligente! Por meio de palavras, eles permitiram estarmos, hoje e aqui, para decifrar, interpretar e narrar aquilo que a história consagrou. Das crenças religiosas, aos ensinamentos das velhas práticas da medicina, passando pelo cotidiano bem popular, até mesmo pelo erotismo humano, o que sabemos do passado, com alguma certeza, está registrado no que podemos ler, graças aos fragmentos de textos gravados em papiros e pergaminhos. Portanto: Escreva e publique!

Releitura do Papiro de Turin”, por Rocha Maia

Texto e Tela: Rocha Maia
Ilustração: Jornal Rio de Flores

 

Luiz Roberto da Rocha Maia. Nasceu no Rio de Janeiro/1947. Morou em Teresópolis e Brasília e, atualmente, em Rio das Ostras. Em 2023, completa mais de cinquenta anos de atividade cultural.
Membro de diversas entidades culturais, no Brasil e em Portugal, é Fundador da Associação Candanga de Artistas Visuais - Brasília /DF. Membro da Academia Brasileira de Belas Artes – ABBA do Rio de Janeiro; e da Academia de Letras e Artes ALEART, Região dos Lagos/RJ. Participou de mais de duzentos eventos de artes no Brasil, Cuba, Portugal, França e Bulgária. Recebeu mais de setenta premiações e destaques em salões de artes plásticas.
Citado em catálogos e sites, possui obras expostas em galerias no Brasil e no exterior; bem como nos acervos do Museu Naïf de São José do Rio Preto/SP; MIAN/Rio/RJ; SESC/SP, na coleção do Château des Réaux; e do Museu Internacional de Arte Naïf de Vicq, na França. Seus quadros estão presentes também em pinacotecas de diversas entidades e coleções de aficionados por arte naïf no Brasil, Cuba, França, Itália, Espanha, Chile, Japão, Bolívia e Portugal.
Por três vezes foi selecionado para a Bienal Naïfs do Brasil, tendo recebido o prêmio aquisição 2006, em Piracicaba/SP. Na literatura, publicou o catálogo “Ingenuidade Consciente”, Editora A3 Gráfica e Editora – 2010; o livro “O Diário de Lili Beth”, pela editora Videu – 2021; e colaborou com a Coluna Arte Animal, da revista digital Animal Business Brasil, escrevendo artigos versando sobre a presença de animais como tema nas belas artes

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